Sempre em Frente

Nesta semana li um artigo do Gibelto Dimenstein, colunista da CBN, sobre a trajetoria da sua vida e como encara a aposentadoria, que me chamou a atenção e tocou meu coração. Espero que todos que lerem este artigo tenham o impulso e fazer muito mais de suas vidas de senioridade.

Minha maravilhosa Aposentadoria – Gilberto Dimestein – publicado em 11/07/2018
Trabalho desde os 14 anos de idade. Inicialmente numa profissão que nem existe mais: office-boy. Em português, contínuo. Comecei numa loja de móveis e acessórios para escritório de Tio Isaac Athias. Ele me empregou por um motivo: salvar o sobrinho do mau caminho, já claro na minha vida de adolescente.
Devo ter sido o pior office-boy que passou por São Paulo. Mas naquela loja aprendi a bater à máquina (isso já existiu) nos mais variados modelos. E também aprendi a conhecer os segredos de São Paulo, caminhando a pé. Duas coisas que foram vitais na minha carreira de jornalista.
Posso dizer que sempre trabalhei (e trabalho) duro. Muitas vezes, aproveitava minhas férias para fazer melhor o que fazia regularmente: dedicava-me a alguma reportagem investigativa sem os limites das obrigações da redação. Foi assim que nasceram meus dois principais trabalhos de impacto mundial: a investigação sobre o assassinato de crianças, que demorou 1 ano, e sobre a exploração sexual de meninas, 9 meses.
Aprendi que o contrário da vida não era a morte. Mas a repetição. Estava sempre em movimento. Aprendi também que a sorte (no caso os furos) só aparece quando você está em movimento.
Lamento informar, mas só acertamos muito errando muito, tomando porrada de todos os lados. Sem essa resiliência, ninguém faz nada de relevante. Os fracassos foram e são meus melhores conselheiros
Lamento também informar a essa geração que privilegia (e com razão) a qualidade de vida, mas minhas conquistas se devem, em parte, à minha péssima qualidade de vida. Mais velho, mantive o ritmo, mas, em nome da minha paixão, larguei o cigarro, a bebida, a madrugada (o que significava várias namoradas ao mesmo tempo). Sou semi-vegetariano. Comprei uma bicicleta. Deixei minha carta de motorista vencer e nunca mais renovei: se não estou a pé, vou de bicicleta ou metrô. Devo confessar que, por sorte, minha mulher – Anna Penido – não desistiu de sua carta de motorista.
À medida que eu ganhava idade (e o corpo já fraquejava), percebi que só existe uma única vantagem de envelhecer. Apenas uma: saber selecionar. E, se tivermos sorte, a melhor opção é sermos o melhor do que somos – e fazermos o melhor do que fazemos.
Desculpe a falta de humildade: não existe no Brasil nenhum jornalista que ganhou tantos prêmios como eu ganhei. Isso se somar os prêmios como escritor e ativista social. Para me aprimorar, virei acadêmico-visitante da Universidade de Columbia (NY) e, depois, desenvolvi, por dois anos, projetos de impacto social em Harvard.
O problema (e aí não é exercício de humildade) é que cada vez sei menos o que tinha de saber, tantas são as modificações das habilidades. Eu até sei o que deveria saber, mas ainda não consegui aprender tudo o que precisaria. Mas isso é pouco, muito pouco: eu sei que o pior é não saber o que eu deveria saber.
Nos últimos 10 anos, resolvi me dedicar ao meu próprio projeto, que criei com meus dois filhos – Marcos e Gabriel. Catraca Livre nasce como um hobby familiar. Para ser sincero, uma forma de compensar o pai ausente na infância e adolescente deles. Quando eu não estava fora viajando por algum lugar do planeta, estava presente, mas minha cabeça continuava viajando por algum lugar.
Catraca Livre prosperou. Nasceu numa casinha da Vila Madalena; hoje ocupa (no mesmo bairro) um espaço de 3 andares. Virou empresa de verdade, com imersões, planos de negócios, seminários, infindáveis reuniões. Coisas em que meu jeito intuitivo de repórter de rua não se encaixa.
Conseguimos montar um projeto lucrativo de impacto social: o lucro convive com a causa de empoderar as pessoas; a causa convive com o lucro.
Justamente por causa desse lucro, eu montei minha aposentadoria. Não para descansar, claro. Mas para ser o melhor do que sou e fazer o melhor do que faço.
Meu papel na Catraca é basicamente um: garantir seu impacto social. Ou seja, a empresa nunca pode perder a noção de que o lucro é tão importante que seu impacto para empoderar as pessoas. Não fosse isso, já teria vendido a Catraca – e passaria todos os outonos em Nova York, a cidade que é minha segunda Vila Madalena.
O que encantador desse processo é fazer parcerias com marcas que conseguem juntar o marketing com causas que admiro. Ajudamos a marca – a marca nos ajuda. E ambos ajudam a um mundo melhor.
Usando o lucro da Catraca, criei o ReciproCidade apenas para apoiar ações criativas de impacto social. Exemplos: transmissões ao vivo pela internet da Orquestra Sinfônica de Heliópolis, shows de jazz e música erudita na rua (na Vila Madalena, claro), uma plataforma de médicos que oferecem consultas grátis (Horas da Vida), um programa em que celebridades compartilham seus casos de sucessos com estudantes, professores e empreendedores sociais (Mestres da Criatividade). Todos os meses fazemos um show com um músico renomado apresentando um novo talento. Um projeto chamado VilaMundo consegue descontos em ingressos culturais.
A maravilha da minha aposentadoria está no seguinte: ser o melhor do que sou e fazer o melhor do que faço.
PS: Uma nota de otimismo a quem tem medo de envelhecer: A melhor coisa do mundo é ser avô.

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